Propriedade: “VOX LACI” (a Voz do Lago) Trimestral 1000 exemplares       Complexo Desportivo de S.D. de Rana

EDIÇÂO ESPECIAL 

I Festival Mundial de Coros em Puebla - MÉXICO Julho 2000

Jornal impresso por Junta Freguesia de S.Domingos de Rana

Palavra de Maestro

Escrevemos com a finalidade de encerrarmos o "dossier" sobre a aventura que o Coro VOX LACI de S.Domingos de Rana, percorreu com o apoio dos media que se interessaram, a Empresa de Construção A.Santo em Cascais e a Junta de Freguesia de S.Domingos de Rana e os familiares dos coristas. Foi em Março que recebemos o convite do Maestro Javier Cameno para participarmos e representarmos PORTUGAL no Festival Mundial de Coros, entre os dias 14 e 21 de Julho em Puebla, a 120 km da cidade do México. Apesar da grande divulgação não conseguimos a verba que pagasse as viagens de avião e um Seguro pessoal aos 25 elementos , num valor de cerca de 4.000.000$00, pois não tivemos o apoio que precisávamos de ter. Do valor necessário apenas conseguimos angariar 1305 000$00 (300c entradas do Concerto de Gala com a participação Especial da fadista Mafalda Arnauth e apresentação de Sónia Brazão e João Melo + 205c leilão de 4 quadros de Alexandra Bernardo + 300c Junta de Freguesia de S.Domingos de Rana + 500c A. Santo) . Fomos ao México representar Portugal, no entanto não nas condições que queríamos: dos 25 elementos seleccionados tivemos que fazer um corte radical- só 13 elementos, e cada um a pagar cerca de 70 000$00. Fomos com uma grande alegria representar Portugal, neste Festival, mas revestida de uma grande desilusão e tristeza. Desilusão, pois não nos deixaram, por falta de apoios financeiros, representar Portugal como o nosso país merece; tristeza, pois os restantes elementos do coro que trabalharam, prescindiram do seu tempo pessoal e familiar para ensaios extras, e sentem-se revoltados não com o facto de não irem, mas pelo motivo que é, falta de apoios das instituições e pessoas que poderiam ter dado um rumo diferente a esta "selecção nacional". AVALIAÇÂO: Valeu a pena o esforço! A crítica foi a melhor possível , os jornais teciam elogios, o público vibrava com a participação portuguesa pedindo, por muitas vezes, para repetirmos peças. Fotos, beijos, abraços, emoção, amizades, autógrafos, fãs foram alguns dos temperos que ajudaram a tornar a participação portuguesa no Mundial de Coros como uma das mais aplaudidas. Não era um Festival Concurso entre os vários coros, mas com a elevada qualidade que os coros tinham, não nos podíamos sentir indiferentes, e os suores e calafrios só terminaram após o Concerto de Encerramento com a participação de todos os coros. Foram 7 dias com uma média de 3/4 actuações por dia! Não só estivemos à altura do nível do Festival, como já temos convites para participarmos em Encontros Internacionais pelo mundo fora. Esperamos que com o reconhecimento Internacional, chegue a hora do reconhecimento Nacional, dos portugueses em geral, dos políticos e "senhores do dinheiro" em Especial. Queremos aproveitar para agradecer a todos os meios de comunicação que duma maneira ou doutra, permitiram aos portugueses saber da existência desta aventura. A todos os que divulgaram: MUITO, MUITO OBRIGADO! Esperamos contar também com o vosso apoio em outras ocasiões!

Despeço-me respeitosamente,
O Maestro, Myguel Santos e Castro
In “Carta enviada aos órgãos da Comunicação Social”

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Depois de muito acreditar, sonhar e esperar, conseguimos chegar ao México! A Viagem pela qual esperávamos duvidosos até ao derradeiro dia tornou-se numa experiência única, de convívio e paixão pela música. Durante os últimos dias no México, cantar para o público era uma agradável prenda, um prazer indiscutível, e não um terror de nervos ou insegurança. De facto, se os coristas que lá estiveram tinham algum medo do palco, perderam-no todo. A experiência mexicana fez-me perceber quão importante é a unidade num coro. É realmente necessária assiduidade nos ensaios, o bom ambiente nas actuações e, principalmente, o respeito entre os coristas. Um trabalho em conjunto resulta sempre melhor do que um esforço exagerado de uns para manter a atenção dos outros. Se todos nos soubermos entregar à música de modo a passar uma mensagem de alegria e bem estar ao público, este será o primeiro a sair contente das actuações, fazendo promessas de voltar! Aquilo que mais gostei no México foi sentir que as pessoas saíam mais alegres dos concertos. A mensagem que passámos no I Festival Mundial de Coros é aquela que devíamos passar em todos os nossos concertos. Moral da história: A união faz a força, e a amizade reforça a união. Força é, sem dúvida, um factor crucial no sucesso de um coro. E sucesso merecemos nós!

Contralto: Alexandra Bernardo

Eu tive o prazer de ir representar Portugal com o coro “Vox Laci” no Primeiro Festival Mundial de Coros em Puebla – México. Foi uma experiência óptima.Antes de partir para México eu tinha perdido o bilhete...entrei em pânico, já estava a ver que ficava em Madrid, mas lá me deixaram entrar. A viagem foi boa. Quando chegamos, já estava um organizador à nossa espera. Antes de sair do aeroporto nós vimos três autocarros, dois mais ou menos de bom estado e outro no meio deles com um aspecto não dos melhores. Por mal do nossos pecados foi nesse mesmo que seguimos viagem para Puebla. Pela viagem aconteceu um acidente: imaginem só...com mais de 20 lugares livres no autocarro a Célia sentou-se no banco em que tinha uma pastilha elástica verde, “lindíssima”. Quando a Célia levantou-se a pastilha formava uma teia de aranha entre o banco e as calças pretas que ela havia vestido. Quando chegámos ao hotel fomos muito bem recebidos. Pequenos almoços muito variados, almoços mexicanos,... . por dia nós fazíamos por volta de 2 a 3 actuações, e o público no fim pedia-nos para cantarmos mais. Foram experiências formidáveis!!!. Um dia fomos a um safari! LINDO! Todas as espécies de animais estavam dentro de um grande campo natural. Nós passávamos por eles dentro de uma camioneta. Vimos lá leões, elefantes, hipopótamos, tigres, macacos, ursinhos a brincaram, lindo!!!! E muitas peripécias passamos esses dias. Encontrámos lá portugueses que estavam num encontro mundial de caminheiros (que coincidência!!!). Na última noite fomos jantar na casa do Maestro do Coro Normalista de Puebla. (comemos lá Tacos –Que delícia!!!). Na hora da despedida houveram choros e uma promessa de lá voltar um dia. A vigem para Madrid foi a dormir!. Quando chegamos a Portugal estavam pessoas do coro à nossa espera. Foi um gesto muito gratificante para nós. Muito obrigado por me terem convidado.

Baixo: Marcos Castro

Após um trabalho árduo, arranhar gargantas, resmas de rolos de fax, dunas de paciência, 4 quilos de expectativa, 600 gramas de insegurança, e cepticismo q.b. ( pelo menos da minha parte, devo admitir ), e um concerto que até nem correu nada mal, yesss ! É mesmo verdade, desta vez é a valer, vamos mesmo ! YaHuuu !. . . Ai, Ai, Aiii i i ! ! ! . O dia " D " começou em beleza! Eu, Gonçalo Saramago Moura Bordado, cédula militar n.º 0038, ia sendo deixado para trás por uns míseros 3 minutos, mas pontualidade é pontualidade, e contra o tempo só mesmo a NASA . Conseguindo chegar ao aeroporto, encontrei sem dificuldade alguma, o distinto grupo coral, já ligeiramente preocupados, mas com a boa disposição de sempre. Começava uma aventura inesquecível . . . No México, estava um bom tempo, e sendo a segunda cidade mais populosa do Mundo, com 22 milhões e 900 mil habitantes, sim leram bem, mais do dobro da população de Portugal, numa única cidade. Ainda pensei em roubos e poluição, aos quilos! Mas não, era tudo fruto de uma imaginação bastante adubada. Fomos logo conduzidos para uma carrinha onde nos levaram ao hotel Aristos ( 5 "estrelas" ). Tudo estava perfeito, não vos vou contar todos os detalhes, se não fica um artigo "bueda secante", leiam o da Xinha que está com espírito, e saberão tudo. Há ! . . . acho que esta viagem foi muito importante para o coro. Tenho a agradecer ao Maestro Myguel Castro o que fez, e faz por nós (todos os dias, mesmo sem nós sabermos) agradeço à Sra. Directora Xana Bernardo (contralto) os quadros que foram leiloados, e a sua preciosa ajuda em geral, sem a qual não teríamos certamente conseguido, quero agradecer aos meus Pais e ao meu irmão que me apoiam sempre, aos coristas mais especiais ( que são todos. . .), à minha editora "StouLivre", aos meus amigos que fazem-me naquilo que sou hoje, mas sobretudo aos fãs, este Oscar vai para vocês ! Muito obrigado ! Obrigado. . . !  Palmas . . .Palmas . . . Palmas . . . Palmas . . . Palmas . " Então público é a vossa deixa, vá lá palmas ! "

Tenor: Gonçalo

Para mim, o Festival Mundial de Coros no México foi uma maravilha. Teve muito bom ambiente, muito divertido, conheci pessoas fantásticas com músicas de muito boa qualidade. As gentes mexicanas são muito simpáticas e acolhedoras, principalmente as pessoas das localidades do interior. Estes eventos são muito importantes, não só para a divulgação da música coral, mas também para o relacionamento de diferentes povos. Espero que tenhamos oportunidade de participar em outros eventos deste género. Para terminar foi da opinião geral que tivemos uma boa participação, na representação do nosso país.Parabéns a TODOS.    

Tenor: Nuno Miguel Queimado 

Venho por este meio descrever a todos, o que vivi e, o que ainda vivo (recordando) acerca de uma “aventura”, que o Coro “Vox Laci”, realizou juntamente com mais dez coros de diversos países. Embora não tenhamos ido todos os coristas do nosso coro, o que foi uma pena, para nós eles andavam sempre connosco, nos nossos corações. Cada país mostrou aos mexicanos (e não só), o que melhor sabia fazer. Cantar! Cada um com o seu estilo, cada um com as suas características e tradições do seu país, sem dúvida que agradou a imensa gente. Portugal foi um país que marcos várias cidades do México e arredores de Puebla, nomeadamente, uma cidade com um povo simpático e carinhoso. O povo da cidade de Serdán. Cada país tinha peças muito diferentes umas das outras, destacando a nossa. Claro! E em todas elas encontramos as músicas bem conhecidas mexicanas: -”Besame Mucho” -”Que Chula es Puebla” -”México Lindo” .Tenho a certeza que os Portugueses agradaram todos os seus ouvintes, pois por outro lado onde andávamos, a música andava connosco. O que não podia deixar de destacar é o convívio que se viveu no festival inteiro. Agora em relação aos outros coros, foram todos muito atenciosos connosco e sempre de sorriso nos lábios. O convívio, o hotel, o povo mexicano, tudo estava óptimo. Pois é, a folha é curta e a tinta está a acabar. Se quisesse descrever o festival inteiro teria de acabar todas as folhas do jornal! Portugal brilhou e fez furor no México! Deixamos muitas lágrimas no aeroporto mas, o México que nos espere, pois nós vamos voltar!

Contralto: Maria João Santos

Pois é, e lá fomos nós ao México representar Portugal depois de tudo o que se fez para angariarmos fundos para as viagens. E desta experiência o que posso eu dizer? Tenho tanto para contar... Depois de muitos sustos que apanhamos e das 12 cansativas horas de viagem lá conseguimos TODOS desembarcar na cidade do México. Mas há muito mais coisas para dizer. Durante o tempo que lá estivemos destoamos sempre de todos os outros coros e, como se isso não chegasse as nossas “batas” faziam a festa já que atraíam todas as atenções. Mas não tenho queixas das pessoas porque, para nós, foram impecáveis assim como o serviço do hotel Aristos. Trataram-nos como estrelas o que para mim foi surpreendente e inesquecível! Até lá deixámos fãs que quando podiam nos seguiam para todo o lado!! Acho que todos ficamos boquiabertos com coisas que ouvíamos desde “estou aqui para vos servir” ou até mesmo “se não vos tirar uma foto com vocês ninguém vai acreditar que estive com gente tão celebre”, enfim... Os concertos correram quase todos muito bem, embora eu e outros tivéssemos ficado um bocado aflitos da voz, mas pelos vistos acho que o público não percebeu e isso foi o importante. Adoramos os nossos guias Raúl e Alberto e pareceu-me que eles também nos adoraram a nós. O Raúl praticamente não nos deixou um minuto sós, foi impecável! Estabelecemos boas relações com elementos de outros coros especialmente com o coro de Porto Rico visto que se encontravam hospedados no mesmo no mesmo hotel que nós e com os quais ainda mantenho contacto. Tenho muito mais para contar, mas se mencionasse tudo o que me lembro nem amanhã sairia daqui! Mas o que prova o quanto gostaram de nós são as saudades que deixámos e as que trouxemos connosco e o nosso desejo e dos que lá ficaram, de voltarmos um dia... .

Soprano: Diana Coimbra

“- Vamos lá pessoal! Relax, descontrair...!” Esta é a forma como, normalmente, os ensaios do coro adulto “Vox Laci” começam. Mas, em meados de Fevereiro o ensaio teve início de maneira diferente à habitual. “- Tenho uma novidade para vos dar, mas só a saberão no final do ensaio! Afirmou o maestro. Todos sabíamos que o Maestro não conseguiria aguardar até ao final para noa contar a novidade. “- OK, pronto eu desisto! Ontem recebi um telefonema do Director do coro Normalista de Puebla – México e ele convidou-nos para irmos representar Portugal no 1º Festival Mundial de Coros que se irá realizar-se lá. (México) no próximo mês de Junho!!! “- Que bom! Mas ...para irmos ao México teremos de arranjar patrocinadores.” – informou o Maestro. Estávamos radiantes mas, ao mesmo tempo sabíamos que seria difícil conseguirmos patrocinadores capazes de nos oferecer a módica quantia de 4 mil contos! Era difícil mas não impossível e, a prova disso é que após de muita publicidade entrevistas e, até um concerto de gala, o Coro, em que tanto me orgulho de contar, esteve presente no 1º Festival Mundial de Coros. Ninguém ficou indiferente à simpatia e energia demonstrada pelo nosso coro. Garanto-vos que fiquei bastante feliz de o nosso pequeno coro depois de grande sacrifícios, ter conseguido ir ao México. Ainda incrédulos chegamos à tão bonita cidade de Puebla, onde se iria realizar o Festival. Com dois ou três concertos diários, pouco tempo tivemos para desfrutar das maravilhas daquela terra. Mas, organizámos o tempo e conseguimos visitar lugares “mui preciosos”, entre eles, museus, feiras de artesanato, as tão formosas pirâmides, um safari africano ... E, nesse último que assistimos a um verdadeiro caso de “amor á primeira vista”! pois é, uma corista presentes ao ver um tigre branco, apaixonou-se de imediato. Com muita pena nossa tivemos de ir embora e, daquele amor impossível, apenas restou juras de amor internos e a esperança de um reencontro! Talvez num tapete quem sabe? Muita peripécias aconteceram naqueles inesquecíveis dez dias. Para além de um coro, de um grupo, somos amigos e talvez fosse por isso que a viagem foi tão gratificante. Como sempre, as despedidas são dolorosas e a nossa não foi excepção. Entre risos e lágrimas, saudade e esperança, abandonámos aqueles que em dez dia se entregaram ao nosso grupo e foram amigos verdadeiros! Agora, ao recordar tudo o que vivi naqueles dias, tenho uma única certeza – a que ninguém se esquecerá do coro de Portugal!

Contralto: Célia Machado

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Leia um e-mail dos nossos amigos Mexicanos

 

Para escrever este artigo tive que passar por um sério exercício de disciplina mental, isto porque para mim falar da experiência do México assemelha-se a um turbilhão de recordações que se atropelam e despertam sem qualquer ordem cronológica ou de importância. Porque tudo foi importante, tudo aconteceu ao mesmo tempo, diária e permanentemente com a mesma profundidade.

Para ajudar a disciplinar as minhas memórias, recorri a um velho truque.

Uma Canção. Curiosamente uma entre tantas que por lá cantamos. Mas esta canção em especial, em pouco tempo, tornou-se uma espécie de Hino.

É a ouvir: México Lindo Y Querido que escrevo este artigo.

A viagem foi longa, tanto quanto o oceano que atravessamos. 12 horas no total foi o suficiente para avistarmos a mega-metrópole - cidade do México.

 

O cansaço já dava sinais de si em todos nós, quando no aeroporto deparámos com um enorme cartaz cor-de-laranja. Tinha algo inscrito, algo, que nos pareceu bastante familiar: Portugal – Coro VOX LACI – S. Domingos de Rana. Por detrás do cartaz estava aquele que se iria tornar, mais que um guia, um amigo. Raul.

O Raul foi a primeira percepção que tivemos sobre os traços de um típico Mexicano. Reservado, educado e extreeeemaaaameeeente calmo. Tranquilo.

Daí que sempre que lhe fazíamos uma pergunta ele respondia calmamente: Manhãna.

 

Nota n.º 1:

O lema – “É para amanhã bem podias fazer hoje” não se aplica por estas paragens.

E ainda bem, porque já chegava o stress lusitano que trazíamos dos últimos dias, por não sabermos se viríamos, se haveriam bilhetes, se conseguiríamos dinheiro, se, se, se....Bah!

O Raúl é moreno de estatura média, com um singelo bigodinho de mariachi, olhos escuros e rasgados, bastante nostálgicos, cabelos cor de petróleo em tons preto azulado. Não negava as suas raízes indígenas, aliás uma brilhante mistura de sangue asteca.

As primeiras gargalhadas aconteceram quando descobrimos aquilo que seria o nosso meio de transporte para Puebla – a 200 Kms ( + 4 horas de viagem) da cidade do México. Uma reciclada camioneta made in USA, azul turquesa, com as partes metálicas hiper brilhantes, de vidros verdes e azuis e com uns bancos... bom, não vale a pena falar dos bancos !

Nota nº 3:

Afinal tenho que falar dos bancos. Através de uma experiência vivida pela Célia, em pouco tempo aprendemos que nunca nos devíamos sentar nos autocarros sem antes certificarmos se não haveria uma bela e gigantesca pastilha verde à nossa espera, quer dizer à espera de um bom traseiro. Ah! Os bancos também são desmontáveis. O que não convinha mesmo nada para as viagens atribuladas, de longa duração, que se fazia diariamente e que se resumia em: subir a montanha , descer a montanha, subir a montanha, descer a montanha (...).

Lá fomos nós partindo à aventura, ansiosos por chegar à terra que nos acolheu com tanto carinho.

A cantoria começou na viagem – afinal, quem canta seus males espanta – uns preferiram dormir, outros ainda permaneciam estáticos de olhos colados ao vidro (verde ou azul!). Mas ninguém suspeitava o que ai viria.

Depois de atravessarmos uma vasta cadeia montanhosa, avistámos finalmente Puebla.

Era de noite e fomos recebidos, no hotel, por um grupo de Mariachis com os seus sombreros de gala e os seus guitarrons. A postura e a voz dos Mariachis derretem corações e promovem um ambiente festivo e contagiante.

Puebla é uma cidade simpática, arranjadinha, cheia de igrejas lindíssimas que sobrevivem graças a um eterno esforço de restauro. A extrema religiosidade apresenta-se-nos como um símbolo de fé, que resiste aos abanões imprevistos do vulcão.

A sua riqueza interior é deveras contrastante com a simplicidade e a pobreza que assistíamos no seu exterior. Este fenómeno chocou muitos de nós.

A comida é saborosa e exótica. Misturam as frutas com os pratos principais. A água engarrafada sabe mal, por isso apostámos nos sumos. Apesar de ter sido retirada da ementa a comida mais condimentada (os picantes), constatámos que o chili não é um mito e que é consumido regularmente pelos mexicanos ao pequeno almoço, com a maior das naturalidades!!!!

Em Puebla abundam os espaços culturais, museus, e como não podia deixar de ser bodeguitas.

Nas artesianas perdemos a cabeça e gastamos muitos pesos a pensar nas pessoas que amamos.

O trânsito era de loucos. O segredo era não olhar. As prioridades eram daqueles que chegavam primeiro ao cruzamento, e todos tentavam ser os primeiros. Os STOPS eram traduzidos como algo do género: Se Tiveres Oportunidade Passa. Não existiam vias da direita, nem da esquerda. O preço do taxi era negociado à entrada do mesmo. Foi lá que vi os carros mais bizarros da minha vida, importados com toda a certeza dos vizinhos americanos.

Nota 6 – Contaram-me que cada dia do ano pertence a um anjo. Pode parecer-nos insólito, mas na realidade até facilita-lhes a vida, pois sempre que nasce um niño, consulta-se o calendário e vê-se qual o anjo que o apadrinha. Assim num determinado dia todos os ninõs com aquele nome comemoram o seu aniversário. Exemplo: Hoy es dia de angel Raúl, manãna es dia de angela Maria.

Enfim, cantámos e encantámos. Todos os dias tínhamos um programa a cumprir, que nos era esboçado na noite anterior, e efectivado de manhã. Deslocámo-nos a várias cidades periféricas onde actuámos em centros culturais, auditórios, teatros e igrejas (Ciúdad de Serdán; Cholula; Tecali, etc.).

Houve sempre uma recepção calorosa em todos os locais onde estivemos. Uns jovens da Ciudad de Serdán, chegaram mesmo a organizaram uma espécie de clube de fãs e faziam questão de assistir aos nossos concertos maravilhosos.

Em geral as pessoas sentiam curiosidade em saber qual o país que representávamos. Incrivelmente percebiam melhor o nosso espanholês do que o do coro Espanhol.

Portugal para os mexicanos era um mistério, até ao momento de se lembrarem do Figo - embaixador de Portugal em Espanha!

Em qualquer lado no mundo se encontra um português e aqui não foi excepção! Uns em passeio, outros residentes.

Nota n.º 8

Num dos concertos na Inglesia de la Ermita, vimos entrar um conterrâneo que se emocionou imenso ao ouvir-nos cantar o Ó Rama.

Os serões no hotel eram passados a cantar, até altas horas da madrugada.

Vozes maravilhosas e músicos de excelência levavam-nos a trocar de nação, embalados numa melodia sem fronteiras. O que me fez concluir que a música é, de facto, uma linguagem universal.

O público rendeu-se à diferença. Conquistámos, não tanto pela qualidade, até porque ali estavam representantes do mais alto nível profissional, mas acima de tudo pela irreverência. As pessoas não estavam habituadas a assistir a este tipo de concertos e a serem levadas a participar activamente no mesmo.

O facto de sermos muito jovens, por termos um repertório variado e sonante, por haver uma dinâmica em palco, uma constante interacção com o público, levou a que as pessoas reagissem positivamente e aderissem com vontade.

Decerto que nunca tinham visto um maestro a reger um coro sentado na plateia, junto com o público, nem tão pouco teriam visto o mesmo maestro a dançar boleros e a improvisar uma dança Havaiana com o microfone! Qualquer pessoa estava sujeita a ser convidada a subir ao palco e a cantar um solo. Este foi o sal e a pimenta que tanto agradou ao público. A irreverência de que ninguém esperava e que acabou por ser a nossa imagem de marca.

A paisagem à volta era magnânima, a natureza misturava-se com o vasto império das civilizações antigas. O espaço era sagrado, ritualizado, indicado para uma introspecção. Ninguém se pode sentir só, nem pequeno, nem grande. É um sitio de contrastes. O céu parece que se vai abater sobre nós. Aos pés das pirâmides, parecemos formigas, no seu cume somos os donos do mundo.

Lamento apenas o facto de não ter sido possível partilhar esta experiência com os restantes membro do Coro que mereciam, tanto como eu, lá ter estado.

Contralto

Paula Barreto